8. MUNDO 23.1.13

HOLLANDE VAI  GUERRA

Aos poucos, o presidente francs reverte sua imagem de homem tranquilo, ao deflagrar interveno militar na frica e enfrentar ruidosas polmicas internas
Mariana Queiroz Barboza

MUDANA EM MARCHA - Considerado aptico por eleitores, Franois Hollande parte para a ao 

At o incio deste ano, o telejornal satrico Les Guignols de LInfo (Os fantoches da informao), muito popular na Frana, retratava o presidente do pas, Franois Hollande, empossado em maio de 2012, como um homem sem pulso firme, acostumado a sair pela tangente em questes embaraosas. O apelido de pudim, cunhado pelo programa de tev, ganhou as ruas e at o seu prprio partido passou a tecer crticas ao seu estilo excessivamente low profile. Mas, a julgar pelas suas ltimas atitudes, pelo menos de indolente Hollande no poder ser mais tachado. Na semana passada, o presidente da Frana foi  guerra. Literalmente. Com o objetivo de conter o avano de radicais islmicos, ligados  Al-Qaeda, Hollande deflagrou uma ao militar no norte do Mali, ex-colnia francesa. Os grupos haviam tomado progressivamente aquela regio desde o fim de 2011, impondo a sharia  a lei islmica   populao local. As tropas francesas iniciaram os ataques na sexta-feira 11 com bombardeios areos, mas isso no impediu que os rebeldes conseguissem mais territrio ao se misturarem  populao. Assim, ao longo da semana, ocorreram combates diretos por terra. Cerca de 2,5 mil soldados foram deslocados para a misso, que segundo o ministro da Defesa francs, Jean-Yves Le Drian, deve ser longa. Comunicada aos franceses em cadeia nacional de tev, a deciso de intervir no Mali surpreendeu pela rapidez com que foi tomada e pelos riscos que assume  uma ousadia para os padres presidenciais  com a ameaa de represlias, como o sequestro de dezenas de estrangeiros num campo de explorao de gs na Algria, na quarta-feira 16. Alm disso, sempre h o perigo de se parecer com um poder ps-colonial, disse  ISTO Bruno Cautrs, analista do Centro de Pesquisas Polticas da Sciences Po.

Em sua inesperada empreitada, o francs recebeu apoio discreto de pases europeus (nem a Alemanha nem o Reino Unido mandaram tropas) e dos Estados Unidos, que, segundo o jornal Los Angeles Times, consideraram sua prpria interveno h seis meses. Na avaliao de Hollande, porm, no havia outra opo ante um exrcito mals insuficiente e uma coalizo de foras da frica Ocidental desarticulada. (Sem a ao) o Mali teria sido totalmente conquistado e os terroristas estariam hoje numa posio de fora, declarou Hollande. O chefe de Estado francs tambm gosta de enfatizar que a interveno s ocorreu depois que o Mali pediu ajuda. A justificativa  endereada ao pblico interno. Durante a campanha presidencial, Hollande decretou o fim da era da Franafrique (relao de influncia com as antigas colnias no continente africano). 

Embora o planejamento da interveno militar tenha passado ao largo desse objetivo, a operao pode aumentar a popularidade de Hollande, ao menos no curto prazo. O episdio militar, de acordo com o instituto BVA, tem o apoio de 75% da populao. Em queda contnua desde sua chegada ao Palcio do Eliseu (quando estava em 61%), a aprovao ao presidente chegou a 46% em janeiro, segundo o instituto Ifop.

Mas, no mbito interno, uma iniciativa de Hollande capaz de arranhar sua imagem perante a populao francesa  seu projeto para legalizar o casamento gay e permitir a adoo de crianas por casais do mesmo sexo. No domingo 13, 340 mil franceses foram s ruas de Paris para protestar contra a proposta. Na semana anterior, Hollande j havia desafiado as celebridades da Frana. Entre elas, o ator Grard Depardieu. Indignado com o aumento de impostos para os milionrios, proposta questionada pelo Tribunal Constitucional, Depardieu abdicou de sua cidadania francesa. Em nenhum dos casos, porm, o socialista recuou no que eram promessas de campanha. Hollande se tornou cada vez menos popular, porque as pessoas no viam liderana nele, afirmou Olivier de France, do European Council on Foreign Relations. Agora, ningum mais questiona sua autoridade. Hollande realmente passou a agir como um presidente, disse.

